Objetivo do estudo
Investigar, em pessoas vivas, se a transmissão de força entre os músculos gastrocnêmio (panturrilha) e isquiotibiais (posterior da coxa) — conectados através da fáscia — varia de acordo com o ângulo do joelho (esticado ou flexionado). O foco foi observar, de forma direta, como a postura articular pode influenciar essa transmissão de força miofascial durante um movimento de tornozelo sem ativação muscular voluntária.
Metodologia
- Participantes: 56 adultos saudáveis (25 mulheres).
- Protocolo: Todos foram avaliados em duas condições: joelho estendido (reto) e joelho flexionado a 60°.
- Tarefa: Enquanto deitados de barriga para baixo, o tornozelo era movido do máximo de flexão plantar até a máxima dorsiflexão por um dinamômetro (aparelho isocinético), sem contração muscular voluntária, confirmada por eletromiografia (EMG).
- Medidas: O deslocamento (movimento horizontal) dos tecidos do semimembranoso (isquiotibial) e gastrocnêmio foi acompanhado em tempo real por ultrassom de alta resolução, funcionando como um marcador indireto da transmissão de força pela fáscia.
Principais Resultados
- Maior transmissão com joelho estendido: O deslocamento do tecido do semimembranoso foi significativamente maior quando o joelho estava reto (4,83 mm) do que quando estava flexionado (3,81 mm), indicando maior transmissão de força da panturrilha para a coxa quando a fáscia está tensa.
- A quantidade de deslocamento também se associou ao movimento do tornozelo e ao quanto o gastrocnêmio se movia, mas essas associações mostraram que outros fatores (como rigidez fascial) influenciam o grau de transmissão.
- Análise estatística confirmou: Existe uma associação significativa entre o deslocamento do gastrocnêmio e do semimembranoso, reforçando o papel das conexões miofasciais seriais (em cadeia).
Comentários e implicações clínicas
- Força à distância: O estudo reforça que alongar ou tensionar o tornozelo pode influenciar (via fáscia) os músculos posteriores da coxa, especialmente se o joelho estiver esticado — como preveem conceitos de cadeias miofasciais.
- Importância para a prática clínica e esportiva:
- O posicionamento articular modifica a efetividade de alongamentos e exercícios. Exemplo: alongar a panturrilha com o joelho esticado pode também liberar ou aumentar flexibilidade dos isquiotibiais.
- As intervenções devem considerar cadeias musculares conectadas por fáscia e não apenas músculos isolados.
- Os achados podem direcionar tratamentos para dores musculoesqueléticas e estratégias de prevenção de lesão, aproveitando efeitos locais e à distância dos exercícios.
- Contribuição científica: É o primeiro estudo em pessoas que demonstra, de forma controlada, o papel do ângulo do joelho sobre a transmissão em cadeia das forças miofasciais.
Conclusão
A transmissão miofascial de força entre a região da panturrilha e a coxa dorsal é real e dependente da posição do joelho: ocorre em maior grau quando o joelho está estendido. O estudo apoia a ideia de que, para potencializar efeitos remotos de mobilizações ou alongamentos, o profissional deve manipular a posição articular para otimizar a transmissão pela cadeia miofascial.
Referência:
Mohr L, Vogt L, Thiel C, Behringer M, Wilke J. Myofascial force transmission between the calf and the dorsal thigh is dependent on knee angle: an ultrasound study. Scientific Reports. 2023;13:3738. https://doi.org/10.1038/s41598-023-30407-3{target=”_blank”}
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