
Na prática clínica da fisioterapia pélvica, é comum nos depararmos com críticas àquilo que não está diretamente respaldado por revisões sistemáticas ou meta-análises. No entanto, a realidade do corpo humano e principalmente do corpo em sofrimento, raramente cabe em protocolos rígidos. Entender as disfunções do assoalho pélvico apenas pela via da evidência isolada é abrir mão da complexidade fisiológica, biomecânica e sensível que envolve cada paciente.
Sim, o treinamento dos músculos do assoalho pélvico (MAP) é considerado o tratamento de primeira linha para incontinência urinária e prolapso. E sim, os estudos mostram que exercícios respiratórios, de forma isolada ou como adjuvantes, não têm benefício superior ao treinamento dos MAP isoladamente na melhora de sintomas como incontinência urinária ou prolapso (Bø et al., 2023)¹. Mas isso não invalida sua relevância clínica em outras dimensões do processo terapêutico.
A literatura mostra que há uma coordenação fisiológica dinâmica entre respiração e ativação dos MAP, tanto em repouso quanto em atividades com aumento da pressão intra-abdominal. Estudos eletromiográficos confirmam que os MAP (profundos e superficiais) são ativados ao longo do ciclo respiratório, com maior ativação durante a expiração e durante esforços expiratórios máximos, como a tosse (Aljuraifani et al., 2019)². Isso indica que o treino respiratório, quando bem orientado e integrado ao trabalho funcional, atua na modulação da pressão intra-abdominal e no aprendizado motor funcional.
Mais ainda: a posição corporal influencia essa sinergia. Estudos mostram que posturas como a posição de engatinhar (crawling) favorecem maior coordenação entre o diafragma, MAP e músculos abdominais em mulheres com disfunção do assoalho pélvico (Korkmaz Dayican et al., 2023)³. Além disso, alterações nessa coordenação foram observadas em mulheres com dor lombo-pélvica pós-parto, com impacto negativo na excursão diafragmática e na base vesical (Kharaji et al., 2023)⁶.
Biomecanicamente, o corpo funciona como um cilindro pressurizado, com o diafragma na parte superior, os músculos abdominais nas laterais e o assoalho pélvico como base. Essa estrutura garante a regulação da pressão intra-abdominal (PIA), suporte postural e estabilidade lombopélvica (Kawabata & Shima, 2023)⁴. A tensão da parede abdominal se correlaciona fortemente com a PIA, e a ativação muscular é modulada por postura e padrão respiratório (Novak et al., 2021)⁵.
Isso explica, na prática clínica, por que a presença de apneia ou abaulamento abdominal durante exercícios de esforço é um indicativo de descoordenação funcional. O foco clínico não é “evitar a incontinência” apenas, mas treinar uma resposta fisiológica mais eficiente e funcional — onde o abdômen se ativa com coerência, sem rigidez nem colapso, respeitando o fluxo respiratório.
Esse aprendizado motor exige foco, atenção no presente, repetição e percepção — e nisso, a respiração se torna uma aliada poderosa para acessar o sistema nervoso autônomo, regular a tensão corporal e criar condições internas para uma reeducação postural e funcional mais harmônica.
Por isso, defender a inclusão da respiração no atendimento fisioterapêutico pélvico não é “ser alternativa” ou “anticientífica”. É integrar ciência e coerência clínica. O olhar global, integrativo e funcional não contradiz a evidência: ele a amplia.
Referências (Estilo Vancouver)
1. Bø K, Driusso P, Jorge CH. Can You Breathe Yourself to a Better Pelvic Floor? A Systematic Review. Neurourol Urodyn. 2023;42(6):1261-1279. doi:10.1002/nau.25218.
2. Aljuraifani R, Stafford RE, Hall LM, van den Hoorn W, Hodges PW. Task-Specific Differences in Respiration-Related Activation of Deep and Superficial Pelvic Floor Muscles. J Appl Physiol (1985). 2019;126(5):1343-1351. doi:10.1152/japplphysiol.00704.2018.
3. Korkmaz Dayican D, Keser I, Celiker Tosun O, et al. Exercise Position to Improve Synergy Between the Diaphragm and Pelvic Floor Muscles in Women With Pelvic Floor Dysfunction: A Cross Sectional Study. J Manipulative Physiol Ther. 2023;46(4):201-211. doi:10.1016/j.jmpt.2024.02.005.
4. Kawabata M, Shima N. Interaction of Breathing Pattern and Posture on Abdominal Muscle Activation and Intra-Abdominal Pressure in Healthy Individuals: A Comparative Cross-Sectional Study. Sci Rep. 2023;13(1):11338. doi:10.1038/s41598-023-37629-5.
5. Novak J, Jacisko J, Busch A, et al. Intra-Abdominal Pressure Correlates With Abdominal Wall Tension During Clinical Evaluation Tests. Clin Biomech (Bristol, Avon). 2021;88:105426. doi:10.1016/j.clinbiomech.2021.105426.
6. Kharaji G, ShahAli S, Ebrahimi Takamjani I, et al. Ultrasound Assessment of the Abdominal, Diaphragm, and Pelvic Floor Muscles During the Respiratory and Postural Tasks in Women With and Without Postpartum Lumbopelvic Pain: A Case-Control Study. Int Urogynecol J. 2023;34(12):2909-2917. doi:10.1007/s00192-023-05621-2.