Muito além do fortalecimento do assoalho pélvico: como a organização do movimento influencia sua saúde
E se eu dissesse que a saúde da sua pelve começa muito antes de você pensar nela?
Antes mesmo de você dar o primeiro passo ao sair da cama, seu corpo já realizou milhares de ajustes para manter o equilíbrio. Seu cérebro integrou informações vindas da visão, do sistema vestibular, da sensibilidade dos pés, das articulações e dos músculos para preparar o movimento. Ao mesmo tempo, o diafragma iniciou sua ação respiratória, a pressão dentro do abdome foi reorganizada, a musculatura profunda do tronco respondeu automaticamente e a pelve adaptou-se para sustentar o peso do corpo diante da gravidade.
Tudo isso acontece antes mesmo do primeiro movimento consciente.
Esse processo se repete milhares de vezes ao longo do dia. Cada respiração, cada passo, cada mudança de posição, cada objeto que levantamos e até o tempo que permanecemos sentados exigem uma reorganização constante do corpo. O movimento não é resultado da ação de um único músculo, mas da interação dinâmica entre diferentes sistemas que trabalham em conjunto para distribuir forças, manter o equilíbrio e responder às demandas da vida diária.
É justamente nesse ponto que precisamos ampliar a forma como compreendemos a saúde pélvica.
Durante muitos anos, a atenção esteve concentrada quase exclusivamente no fortalecimento dos músculos do assoalho pélvico. Essa abordagem trouxe avanços importantes na prevenção e no tratamento da incontinência urinária, dos prolapsos dos órgãos pélvicos e de algumas disfunções sexuais. Entretanto, o conhecimento científico produzido nas últimas décadas mostra que essa musculatura exerce funções muito mais amplas do que simplesmente sustentar os órgãos da pelve.
Hoje sabemos que o assoalho pélvico faz parte de um sistema funcional integrado, atuando em estreita coordenação com o diafragma, o transverso do abdome, os músculos profundos da coluna e outras estruturas responsáveis pela estabilização do tronco e pelo controle da pressão intra-abdominal. Estudos demonstram que essa coordenação está presente em indivíduos saudáveis e faz parte do funcionamento normal do organismo, contribuindo para a respiração, o controle postural e a eficiência do movimento¹–⁴.
Entretanto, é importante compreender o que a ciência realmente nos mostra. Embora exista sólida evidência anatômica e biomecânica de que respiração e assoalho pélvico funcionam de maneira coordenada, a revisão sistemática mais recente sobre o tema conclui que ainda não há evidências suficientes para afirmar que exercícios respiratórios, realizados de forma isolada, sejam capazes de promover benefícios clínicos consistentes para todas as disfunções do assoalho pélvico¹. Em outras palavras, a respiração é uma peça importante desse sistema, mas não deve ser entendida como uma solução única ou universal.
Essa distinção é fundamental.
Na prática clínica baseada em evidências, compreender como o corpo funciona é diferente de afirmar que uma única intervenção resolverá um problema complexo. As disfunções do assoalho pélvico são multifatoriais. Elas resultam da interação entre fatores biomecânicos, neuromusculares, hormonais, comportamentais, obstétricos, esportivos e relacionados ao estilo de vida. É justamente essa complexidade que exige uma avaliação cuidadosa e individualizada.
A pelve ocupa uma posição estratégica nesse sistema. Ela conecta os membros inferiores ao tronco, transmite forças entre essas estruturas, participa da absorção de impactos e adapta-se continuamente às mudanças de posição e às exigências do movimento. Cada passo, cada respiração e cada mudança de direção exigem ajustes precisos para manter o equilíbrio e utilizar a menor quantidade possível de energia.
Por isso, quando observamos apenas o local onde o sintoma aparece, corremos o risco de enxergar apenas uma parte da história.
Uma perda urinária durante a corrida, uma sensação de peso na região pélvica, uma dor persistente ou um desconforto durante a prática esportiva podem estar relacionados ao comportamento do assoalho pélvico, mas também à maneira como a pessoa respira, distribui suas cargas, organiza seus movimentos, adapta-se às demandas da atividade física e utiliza o corpo no dia a dia.
O mesmo raciocínio vale para a relação entre os pés, a marcha e a pelve. Estudos biomecânicos mostram que alterações no apoio plantar, como a hiperpronação, podem modificar a ativação de músculos do tronco e influenciar a mecânica lombopélvica durante a marcha⁵–⁸. Isso não significa que toda alteração nos pés causará uma disfunção pélvica. Significa, sim, que a pelve faz parte de uma cadeia funcional integrada e que uma avaliação clínica de qualidade precisa considerar como o corpo se organiza como um todo.
Da mesma forma, embora permanecer muitas horas sentado esteja associado a alterações musculoesqueléticas e à redução da variabilidade do movimento⁹–¹¹, a literatura também mostra que simplesmente “mover-se mais” não garante, por si só, melhor suporte do assoalho pélvico. Em determinadas situações, como no puerpério ou durante atividades físicas de alta intensidade, cargas excessivas podem representar um desafio adicional para os tecidos pélvicos¹². Mais importante do que incentivar o movimento de forma indiscriminada é compreender qual movimento, em que intensidade, para qual pessoa e em qual momento da vida.
Essa forma de pensar representa uma mudança de paradigma.
Na Cinésio Pélvica, acreditamos que compreender o movimento é compreender a própria saúde. Antes de perguntar “qual exercício devo fazer?”, fazemos uma pergunta diferente:
Como o meu corpo está se organizando para responder às demandas da vida?
Essa pergunta transforma a maneira como avaliamos, tratamos e prevenimos as disfunções pélvicas.
Em vez de enxergar a pelve como uma estrutura isolada, passamos a entendê-la como parte de um sistema inteligente, dinâmico e altamente adaptável. Um sistema em que respiração, controle motor, percepção corporal, distribuição das cargas e capacidade de adaptação são tão importantes quanto a força muscular.
Ao longo deste artigo, convido você a percorrer esse caminho conosco. Vamos explorar o que a ciência já nos permite afirmar com segurança, quais perguntas ainda estão em investigação e, principalmente, como esse conhecimento pode transformar a maneira como você compreende o seu corpo e cuida da sua saúde.
Porque, muitas vezes, o sintoma aparece na pelve, mas a história começou muito antes dele surgir.
Referências
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- Pereira LC, Botelho S, Marques J, et al. Are transversus abdominis/oblique internal and pelvic floor muscles coactivated during pregnancy and postpartum? Neurourol Urodyn. 2013;32(5):416-419.
- Kharaji G, ShahAli S, Ebrahimi Takamjani I, et al. Ultrasound Assessment of the Abdominal, Diaphragm, and Pelvic Floor Muscles During the Respiratory and Postural Tasks in Women With and Without Postpartum Lumbopelvic Pain. Int Urogynecol J. 2023;34(12):2909-2917.
- Zachovajeviene B, Siupsinskas L, Zachovajevas P, et al. Effect of Diaphragm and Abdominal Muscle Training on Pelvic Floor Strength and Endurance. Sci Rep. 2019;9:19192.
- Yazdani F, Razeghi M, Karimi MT, et al. Foot Hyperpronation Alters Lumbopelvic Muscle Function During the Stance Phase of Gait. Gait Posture. 2019;74:102-107.
- Kararti C, Bilgin S, Dadali Y, et al. Are Biomechanical Features of the Foot and Ankle Related to Lumbopelvic Motor Control? J Am Podiatr Med Assoc. 2021;111(3).
- Yazdani F, Razeghi M, Karimi MT, et al. The Influence of Foot Hyperpronation on Pelvic Biomechanics During Stance Phase of the Gait. Proc Inst Mech Eng H. 2018;232(7):708-717.
- Lee K. Investigation of Electromyographic Activity of Pelvic Floor Muscles in Different Body Positions to Prevent Urinary Incontinence. Med Sci Monit. 2019;25:9357-9363.
- Pinto AJ, Bergouignan A, Dempsey PC, et al. Physiology of Sedentary Behavior. Physiol Rev. 2023;103(4):2561-2622.
- Baker R, Coenen P, Howie E, et al. The Short Term Musculoskeletal and Cognitive Effects of Prolonged Sitting During Office Computer Work. Int J Environ Res Public Health. 2018;15(8):1678.
- Arippa F, Nguyen A, Pau M, Harris-Adamson C. Postural Strategies Among Office Workers During a Prolonged Sitting Bout. Appl Ergon. 2022;102:103723.
- Shaw JM, Wolpern A, Wu J, Nygaard IE, Egger MJ. Postpartum Sedentary Behaviour and Pelvic Floor Support: A Prospective Cohort Study. J Sports Sci. 2023;41(2):141-150.
Como esse conhecimento pode transformar a sua jornada
Compreender a saúde pélvica é muito mais do que conhecer os músculos do assoalho pélvico. É aprender a observar como o corpo se organiza para respirar, sustentar, movimentar-se e adaptar-se às diferentes demandas da vida.
Na Cinésio Pélvica, acreditamos que cada pessoa possui uma história única, construída por suas experiências, hábitos, características físicas e desafios do cotidiano. Por isso, cada avaliação e cada plano terapêutico são individualizados, respeitando as necessidades e os objetivos de cada paciente.
Da mesma forma, acreditamos que os profissionais da saúde e do movimento precisam desenvolver um olhar clínico ampliado, capaz de integrar biomecânica, controle motor, neurociência, raciocínio clínico e prática baseada em evidências para oferecer um cuidado cada vez mais completo e humanizado.
Para pacientes
Se você apresenta sintomas como perda urinária, dor pélvica, sensação de peso na região íntima, constipação, desconforto durante a relação sexual, alterações relacionadas à gestação, ao pós-parto, à menopausa ou deseja melhorar sua qualidade de vida e seu desempenho funcional, um acompanhamento individualizado pode fazer toda a diferença.
A proposta da Cinésio Pélvica é compreender a causa das alterações funcionais, e não apenas tratar os sintomas, promovendo uma reabilitação mais eficiente, segura e duradoura.
Para fisioterapeutas e profissionais do movimento
Se você busca aprofundar seus conhecimentos em saúde pélvica e aprimorar seu raciocínio clínico, também oferecemos treinamentos, mentorias, consultorias e programas de capacitação voltados para fisioterapeutas, educadores físicos, profissionais de Pilates e demais profissionais do movimento.
Nossa metodologia integra ciência, experiência clínica e uma visão global do movimento humano, ajudando profissionais a desenvolver avaliações mais completas, condutas individualizadas e maior segurança na tomada de decisão clínica.
Nosso objetivo é formar profissionais capazes de compreender o corpo de forma integrada e oferecer um cuidado baseado nas melhores evidências científicas disponíveis, sempre respeitando a individualidade de cada pessoa.
Vamos continuar essa conversa?
Se este artigo despertou uma nova forma de enxergar a saúde pélvica e o movimento, será um prazer caminhar ao seu lado nessa jornada.
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Ciência, movimento e raciocínio clínico para transformar a saúde pélvica.
“Porque, muitas vezes, o sintoma aparece na pelve, mas a transformação começa quando aprendemos a compreender o corpo como um sistema integrado.”